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Manual do Doador

TRANSPLANTE RENAL INTERVIVOS
O que os doadores precisam saber

Daniel Xavier Lima
Andy Petroianu
Walter Antonio Pereira

 

Introdução
Tal processo é freqüentemente uma fonte de angústia para toda a família dos pacientes com indicação para transplante. Muito pouco se discute sobre essa situação, havendo grande escassez de publicações a respeito da doação renal em vida, mesmo no âmbito médico e alguns consideraram as informações recebidas na época do transplante pouco esclarecedoras.

O potencial doador precisa receber informações suficientes para compreender todos os aspectos da doação.
A doação de órgãos em vida é uma operação que difere das demais, por não envolver benefícios diretos ao doador que, inclusive, está sujeito a complicações. São possíveis ganhos secundários, como a descoberta de problemas médicos ocultos, apenas diagnosticados na avaliação pré-transplante, e o aumento na auto-estima por realizar algo grandioso. O que motiva em geral os doadores é o desejo de ajudar um ente querido.

Há cerca de 70.000 pessoas esperando por um transplante no Brasil e estima-se que 36 novos pacientes são inscritos na lista de espera por dia

No Brasil, estima-se que 90% da população aceitam bem o transplante intervivos. Entretanto, por falta de informação sobre o conceito de morte encefálica, ainda existe resistência ao transplante de órgãos de doador falecido, apesar das campanhas de esclarecimento realizadas por várias entidades, e que a quantidade de transplantes renais intervivos representa, aproximadamente, 50% do total de transplantes realizados, desde 2004, segundo dados da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos e Tecidos (ABTO).

 

Doação renal recompensada
A doação renal é um ato altruísta, que não pressupõe gratificação alguma. O comércio de órgãos é um delicado dilema ético, moral e legal. A legislação da maioria dos países, entre os quais, o Brasil, não permite a venda de órgãos ou de partes do corpo humano. Entretanto, o comércio de órgãos hoje é uma realidade e alcança dimensões preocupantes em algumas partes do mundo.
Já os autores contrários à venda de órgãos argumentam que a vida humana não tem preço, portanto não existiria critério que pudesse estabelecer o preço para uma parte do corpo.

 

Legislação de transplante renal no Brasil
No Brasil, diversas leis, portarias e decretos regulamentam os transplantes e as entidades que coordenam a atividade. As principais leis são a Lei nº. 9.434, de quatro de fevereiro de 1997 e a Lei nº. 10.211, de 23 de março de 2001, cujos principais aspectos de interesse para o doador renal são descritos a seguir:
- Os transplantes só podem ser realizados em estabelecimentos de saúde e por médicos autorizados pelo órgão de gestão nacional do Sistema Único de Saúde.
- Os transplantes só podem ser autorizados após a realização, no doador, de todos os testes de triagem para diagnóstico de infecção ou afecções, principalmente em relação ao sangue.
- Só é permitida a doação em vida com o objetivo de atender a uma necessidade terapêutica comprovadamente indispensável e inadiável do receptor.
- Cônjuges e parentes até quarto grau podem ser doadores.
- Não parentes necessitam de autorização judicial para serem doadores.
- Só é permitida a doação de órgãos duplos ou partes de órgãos, tecidos ou partes do corpo cuja retirada não cause ao doador comprometimento de suas funções vitais e aptidões físicas ou mentais, nem lhe provoque deformação.
- O doador deve ser obrigatoriamente informado sobre as conseqüências e riscos possíveis da doação, em documento oferecido à sua leitura, com sua assinatura e de duas testemunhas presentes no ato.
- O documento de autorização deve ter cópia encaminhada ao Ministério Público.
- O doador deve especificar em documento escrito o nome do receptor e qual órgão está doando para transplante.
- A doação pode ser revogada pelo doador a qualquer momento antes de iniciado o procedimento de retirada.

Qualidade de vida dos doadores de rim
Foram avaliadas 100 pessoas que haviam doado um rim para transplante no Hospital das Clínicas da UFMG (HC-UFMG), em média oito anos após a operação. Os índices de qualidade de vida encontrados foram comparáveis aos de um grupo de 100 pessoas saudáveis que aceitaram participar da pesquisa (grupo-controle). Esses resultados mostraram que a qualidade de vida não é prejudicada pela doação renal, assim como também ocorreu em pesquisas feitas em outros países. Além disso, observou-se que em dois parâmetros – o estado geral da saúde e a vitalidade – as mulheres doadoras apresentaram pontuações melhores do que o grupo-controle.

Relato I
“Quando descobri que minha filha precisava urgente de um transplante de rim, não pensei duas vezes. Já sabia que eu seria a doadora. Desde o início já havia falado com minha filha. Fiquei impressionada comigo mesma. Não senti medo em hora alguma. Muito pelo contrário, o que eu queria mesmo era começar a fazer os exames para ver se meu rim seria compatível. Foram muitos exames que eu fiz, passei por muitas etapas, mas em momento algum pensei em desistir, principalmente porque todos estavam me apoiando”.

RELATO II
Havia outras pessoas que poderiam doar, mas me prontifiquei a fazê-lo eu mesmo. A decisão foi rápida, apenas uma semana. Como se tratava da minha filha, fizemos os exames juntos, com muita alegria.
Tive o medo natural de qualquer pessoa que vai se submeter a uma cirurgia. O maior receio que nos assalta é o temor da rejeição. Doador e receptor ficam “com a cabeça a mil”, imaginando coisas.
Espero que os futuros doadores tenham força para enfrentar todos os procedimentos e se apóiem uns nos outros. Que se preparem psicologicamente, e não só fisicamente, para a doação.